10 de dezembro de 2012

Les Accommodements Raisonnables



Olá pessoas,

Cada sociedade possui seus problemas não comparáveis, pois são possíveis somente para aquela realidade. E aqui no Québec não teria como ser diferente, porém eu ainda não consigo me conectar com muitos dos dramas daqui e outros ainda me parecem um pouco surreais.

No entanto, eu gosto de me informar todo tempo para tentar me aproximar dessa realidade, pois acredito que isso também significa “integração”. Ainda que encontre inúmeras pessoas aqui há mais de 5 anos que acham penosa e complicada essa busca por referências sociais em jornais, revistas, documentários ou mesmo na simples conversa com os outros.

Conversando com algumas pessoas sobre imigração, cultura e tradição, percebi que muitos não conheciam ou nunca tinham ouvido falar sobre “Accommodement Raisonnable” e por isso achavam tão difícil entender o que os Québecas achavam de tudo isso.

“Accommodement Raisonnable” é uma palavra criada no Québec e define toda tentativa das sociedades laicas de diminuir o choque entre a cultura  do imigrante e a cultura do local que o recebe, fazendo concessões para melhor integrar as exigencias das diferentes minorias religiosas. Ou seja o governo, em teoria, mudaria diversas leis e costumes para não chocar o imigrante recém chegado.
Vocês sabem da completa suspeita que os Quebécas tem contra as religiões, logo esse tema já foi criado gerando alguma confusão.

Em 2006 o Québec passava por uma grande efervescência relacionada com esse tema, por diversos motivos, alguns dos que eu consegui pescar são:
                - Uma escola judaica pediu que uma academia em frente fechasse suas janelas com cortinas, pois as mulheres fazendo exercício com pouca roupa atentava contra seus preceitos religiosos;
                - Homens vindos de países machistas não respeitavam mulheres policiais;
                - Homens de turbante dirigiam moto sem capacete pois o mesmo não caberia dentro dele. E retirá-lo seria contra sua religião;
                - Mulheres queriam usar as piscinas públicas, mas para isso precisava da retirada de todos os homens. Pois segundo a religião que elas praticam, mulheres não podem mostrar o corpo pra homens desconhecidos;
                - Pais prendiam os filhos em casa ou praticavam atos crueis em nome da honra.

Na maior parte desses casos, o governo deu razão para os reclamantes, pois por causa do Accommodement Raisonnable, pedir pra alguém mudar sua religião seria encarado como preconceito contra o imigrante e sua cultura.

Após inumeros casos como esse, várias cidades do Québec queriam que o primeiro ministro anulasse os “Accommodements Religieux”. Sem nenhuma resposta do Jean Charest, uma minúscula cidade chamada Hérouxville criou seu próprio código de conduta para “proteger” seus habitantes. Nesse código estavam diversas normas falando da igualdade entre os sexos, que os açougues venderiam carne de porco junto com a de boi, que não se pode lapidar as mulheres e etc. Embora essas normas não sejam tão loucas assim, a idéia de que todas as cidades criariam seus próprios códigos de vida assustou o governo que resolveu criar uma comissão Bouchard, onde um sociólogo chamado Gérard Bouchard (irmão do ex-primeiro ministro) e um filósofo Charles Taylor iriam analisar tudo o que acontecia para ver quais seriam os próximos passos.
Após mais de 1 ano a comissão gerou um relatório dizendo o que poderia ser feito para que a confusão terminasse, mais ao mesmo tempo salientando que a confusão só aconteceu por causa do duplo-status Québeca de a maior comunidade dentro do Québec mas a menor da américa do norte, que gerava um sentimento de inferioridade, pois eles tem medo de serem absorvidos em meio de todas as minorias que imigram.
O relatório foi deixado de lado e não foi implementado e por isso ainda hoje temos inúmeras discussões referentes à religião dos imigrantes e o choque cultural que ela causa.
Não vou me estender mais, então coloco dois vídeos. Um stand-up onde o humorista fala sobre o assunto:


E uma música falando sobre os problemas na cidade de Hérouxville.


5 comentários:

Olá!
Este é p tipo de post que sempre me atrai À leitura cuidadosa! Obrigado!
Mas, permita-me sua gentileza.Não entendi esta parte do texto: "que a confusão só aconteceu por causa do duplo-status Québeca de a maior comunidade dentro do Québec mas a menor da américa do norte, que gerava um sentimento de inferioridade, pois eles tem medo de serem absorvidos em meio de todas as minorias que imigram." O que é este duplo status e que comunidade é essa? Judaica, Muçulmana?... Abraço,
Fabio

Uau! Amei esse post! Parabéns tanto pela forma de escrever como pela escolha do tema!

Eu, como pessoa traumatizada com religião interferindo na vida da população e na laicidade do Estado, tenho tendência a me colocar contra esse "Accommodement Raisonnable". Acredito que a religião deve ficar restrita à vida privada de cada um, não deve ultrapassar as paredes e ir para a rua, incomodando as outras pessoas que não tem nada a ver com a história.

MAS, contudo, no entanto, todavia... Rsrsrsrs... Entendo que é um tema DELICADÍSSIMO porque o Québec e o Canadá são grandes "importadores" de pessoas. E se os imigrantes são tão importantes assim para a economia, o país precisa dar um jeito de respeitar essas pessoas "importadas".

Complicado é eufemismo, né?

Beijos,
Lidia.

Fábio,

Obrigado pelo comentário. Realmente ficou um pouco confuso, mas a comunidade que eu me referi é a própria comunidade Québeca que se sente "Maioria-minoritária". Coloco abaixo as próprias palavras do Sr Bouchard:

"Les francophones d’ascendance constituent une majorité qui réagit comme une minorité, qui démontre les mêmes sentiments d’inquiétude, de menace, de fragilité, le même réflexe de repli, de durcissement… Une réaction classique bien connue en psychosociologie et en sociologie. Donc, voilà une majorité qui a peur de sa minorité. Aujourd’hui, l’histoire de la culture canadienne-française est un paramètre fondamental. La raison pour laquelle on a vu ces derniers temps des petites explosions dans le débat sur les accommodements raisonnables, c’est parce qu’on a touché à une fibre canadienne-française ultrasensible, à laquelle il ne faut pas toucher: la fibre identitaire. Le Canadien français ou le francophone d’ascendance, qui est son héritier, reste quelqu’un qui a vécu près de trois siècles de colonialisme, de domination sur le plan politique, d’infériorisation sur le plan social, de dévalorisation de soi… Il est membre d’une société qui est fragile, qui ne nourrit pas d’elle-même une idée très claire ni très valorisante. On retrouve ce paramètre dans les diagnostics pessimistes exprimés dans le discours défaitiste de beaucoup d’intellectuels que nous avons interrogés."
http://voir.ca/societe/2007/03/29/gerard-bouchard-la-majorite-minoritaire/


Lidia,

Sim, esse tema ainda gera polêmica e os jornais passam bastante tempo o debatendo. Precisamos desse debate, pois só assim poderemos descobrir qual o melhor caminho...

Obrigado pelo comentário

Agora entendi!
É verdade que este sentimento de inferioridade toma conta do Québec. Por um lado é bom pois eles buscam garantir força para manter a Cultura. Por outro, no entanto, parece ser prejudicial o fato de ao defendê-la julgar-se inferiores ou superiores. Sempre vejo exageros quando o assunto é indenidade quebecoise. Isso da parte deles evidentemente. Gosto muito do programa do Benoir Dutrizac e da Isabelle Marechal da 98,5 porque sempre colocam em debate essa questão da identidade. Quase nunca há uma "média ponderada" nas argumentações.As oscilações de dúvidas e certezas são demasiadas. O sentimento que tenho daqui é sempre "Eles se acham" ou inferiores ou superiores. Veja, tranquei meu curso FEL porque a professora ultima se achava a ultima cereja do bolo. Corrigia o texto que era uma beleza, mas tinha o péssimo hábito de julgar negativamente os alunos de outros paises dizendo que "no Quebec tudo é corretinho, somos os melhores, aqui isso não acontece, aqui temos tralalala. Nossa metodologia pedagógica acabou quando ela resolveu me acusar de plagiar a lição da plataforma. Escolhei o cara errado para fazer isso. Minha vontade era dizer "Se toca filha" o mundo é maior do que você pensa. De certa foram disse isso em outras palavras.

so sei que o accommodement raisonnable me da faniquitos, quando o Québec ameaça de perder a propria identidade para acomodar razoavelmente a dos outros....
sapin de Noël foi e continuara sendo sapin de Noël, é ridiculo chamar de sapin des fêtes.
Touchez pas à mon sapin! e sou totalmente de acordo.

em Roma como os romanos, nao é ? Por quê o Québec tem que abrir as pernas pra todo mundo e perder sua propria raiz?

humpf ....
(quase 5 anos de QC, tô quase da gema)

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